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Acontece na IBLISS

Se nós já sabemos o que é Phishing, por que ainda clicamos?

(Série Risco Humano – Parte I)

Por Suzana Martins, Especialista de Conscientização na IBLISS DIGITAL SECURITY.

Se nós já sabemos o que é phishing, por que ainda clicamos?

Quando o golpe ataca o que sentimos
Durante anos, o mercado de Segurança da Informação repetiu um mantra quase indiscutível, que “o ser humano é o elo mais fraco da corrente”. Essa visão, além de obsoleta, transfere para o usuário a culpa por falhas sistêmicas e cria um abismo de desconfiança corporativa. A realidade, contudo, é muito mais complexa e urgente. O ser humano não é um mero elo vulnerável; ele é o ponto de decisão final de qualquer barreira, seja tecnológica ou processual.

E para compreender esse ponto de decisão, precisamos entender que o cérebro humano opera sob duas forças distintas: de um lado, o hemisfério esquerdo, lógico e analítico, responsável por processar regras e dados; do outro, o hemisfério direito e o sistema límbico, que governam nossas emoções, intuições e reações rápidas.

Se a tecnologia evoluiu a ponto de interceptar a maioria das ameaças automatizadas, o cibercrime refinou sua mira para o único território que os firewalls não alcançam, a psicologia humana. É por isso que nos deparamos com um paradoxo intrigante; por que pessoas instruídas, que sabem perfeitamente o que é um phishing, continuam clicando em links maliciosos?

A resposta não está na falta de treinamento racional, mas no profundo desconhecimento de como as emoções moldam nossas ações digitais. O phishing moderno não é um ataque de código; é um ataque de engenharia psicológica projetado para sequestrar nossa racionalidade por meio de gatilhos como o medo, a urgência, a ambição e a curiosidade. No Brasil, um país hiper conectado, mas digitalmente vulnerável, essa dinâmica ganha contornos ainda mais alarmantes.

Para virar o jogo da conscientização, precisamos parar de educar apenas o hemisfério lógico dos colaboradoresusuários. Se o crime cibernético vence ao manipular o sentimento, a segurança da informação só vencerá quando aprender a tocar na emoção. Afinal, aquilo que toca o coração, o cérebro raramente esquece.

A ciência por trás do clique. Por que as emoções desligam a razão?

Essa dualidade entre o hemisfério esquerdo e o direito não é apenas uma metáfora; ela encontra eco na ciência comportamental mais respeitada do mundo. Para entender por que pessoas que detém a informação continuam caindo em golpes, precisamos traduzir essa mecânica para o funcionamento prático do cérebro humano.

A psicologia comportamental, popularizada pelo Nobel Daniel Kahneman, nos ensina que nós não pensamos da mesma maneira o tempo todo. Nosso cérebro opera por meio de dois sistemas de processamento que dão vida a esses dois lados: o Sistema 1, que é rápido, intuitivo e puramente emocional (governado pelo nosso lado direito e sistema límbico); e o Sistema 2, que é lento, deliberado, lógico e analítico (a expressão máxima do nosso hemisfério esquerdo).

O grande trunfo do phishing e da engenharia social não é técnico, é biológico. Os criminosos desenham suas armadilhas com um único objetivo de obrigar a vítima a agir usando exclusivamente o Sistema 1. Eles fazem isso ativando o que a neurociência chama de sequestro amigdalar, ou seja, um mecanismo de defesa ancestral que prioriza a sobrevivência e a reação rápida em detrimento da lógica.

Quando um e-mail ou mensagem utiliza o gatilho da urgência ou de medo, por exemplo, “suas fotos foram vazadas” ou “seu CPF será bloqueado”, o cérebro entra em um estado de alerta simulado. O córtex pré-frontal, responsável pelo pensamento crítico e pelo bom senso (Sistema 2 / hemisfério esquerdo), é temporariamente desconectado pela pressa e pelo estresse. O clique no link malicioso acontece nesse milissegundo de vulnerabilidade, antes que o pensamento lógico consiga retomar o controle.

Os atacantes são, na verdade, exímios manipuladores de sentimentos. Eles compreenderam que o ser humano, sob forte impacto emocional, seja pela promessa de um ganho financeiro inesperado ou pela ameaça de uma punição, perde temporariamente a capacidade de duvidar. É por isso que as campanhas tradicionais de conscientização falham, pois elas insistem em fornecer instruções lógicas para o Sistema 2, ignorando que, no momento da pressão, é o impulsivo Sistema 1 quem toma a decisão final.

O próximo passo na linha de defesa

Embora essa dinâmica cerebral seja uma regra universal da biologia humana, ela nos aponta um norte obrigatório para o futuro da Segurança da Informação; se o atacante usa a engenharia social e psicológica para paralisar a razão, a nossa defesa precisa aprender a treinar a emoção.

Por isso, os objetivos das novas campanhas e treinamentos de conscientização devem ser urgentemente redesenhados. Em vez de apenas testar a retenção de conceitos lógicos por meio de quizzes e conteúdos engessados, as organizações precisam criar experiências que gerem empatia, autoconfiança e reflexão profunda no colaborador.

Na prática, os conteúdos de segurança devem simular o estresse real em um ambiente seguro e acolhedor, ajudando o indivíduo a reconhecer o próprio comportamento sob pressão. É preciso ensinar o cérebro a identificar aquele sinal de alerta emocional, que é o coração acelerado, o senso de urgência, a pressa, tudo isso antes mesmo de ele olhar para o link.

No entanto, redesenhar essa abordagem não é apenas uma tendência global de inovação; para nós, é uma questão de sobrevivência digital. Afinal, compreender essa mecânica psicológica é o primeiro passo, mas é o ambiente onde o indivíduo está inserido que dita a velocidade e o sucesso do ataque. E é justamente nessa intersecção entre a neurobiologia e o contexto cultural que o cenário brasileiro se destaca, infelizmente, pelas razões erradas.

E é aí que fica o questionamento: se a biologia humana é a mesma em qualquer lugar do mundo, por que as armadilhas emocionais funcionam tanto por aqui? Por que o Brasil figura sistematicamente no topo dos rankings mundiais de vítimas de phishing?

No próximo artigo desta série, vamos analisar a anatomia do golpe em solo nacional. Vamos descobrir como a velocidade do Pix, a intimidade do WhatsApp e uma característica cultural silenciosa criaram o laboratório perfeito para o crime digital e, claro, como aplicar o redesenho dessas campanhas baseadas em inteligência emocional para virar esse jogo de uma vez por todas.

Até lá!

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6 de fevereiro de 2026

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